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Um Anjo Entre os Gatos

Era uma tarde em São Paulo, como tantas outras que passei em sua casa. De repente, um telefonema, um pedido de socorro. Três gatinhos recém nascidos haviam sido abandonados, e berravam de fome... A pessoa do outro lado da linha não conseguia alimentá-los. No rosto suave de Inês, estampou-se a preocupação imediatamente. Ela mandou trazê-los, e quando chegaram, ficamos espantadas com seu tamanhinho, com sua fragilidade... Eram duas meninas e um menino, elas preta e preta e branca, ele todo branquinho, com jeito de siamês.

Havia uma gata amamentando, uma gata chamada Miriam Miau, que tinha perdido seus filhotes todos, e já havia adotado uma bebê órfã de 45 dias. Inês chamou a gata e mostrou-lhes os filhotes, mas ela não pareceu se interessar, e já ia embora quando Inês lhe disse: "olha, Miriam, Deus trouxe de volta os seus filhinhos..." E, por incrível que isso possa parecer, a gata imediatamente começou a lamber os pequeninos, e os aconchegou junto dela, para que mamassem. Nos olhos de Inês, as lágrimas corriam. Nos meus também, porque estava certa de ter presenciado um milagre. Um verdadeiro milagre de amor.

Dos três filhotinhos, um viria parar na minha casa, no Rio de Janeiro, exatos 40 dias depois. Se chamou Victor, aquele que venceu, e sua madrinha não poderia ser outra senão a própria Inês.

Esse foi apenas um dos momentos que tive a honra e o prazer de presenciar em sua casa, que era conhecida por todos como Lar do Bicho Feliz. Inês era uma pessoa iluminada, um anjo que se dedicava aos animais de corpo e alma. Em sua casa os cegos, defeituosos, enfim, todos os que haviam sido rejeitados, encontravam um lugar seguro, casa, carinho, cuidados. Adotou inúmeros cães e gatos ao longo dos anos, todos tratados como filhos amados, todos castrados, vacinados e saudáveis.

Estar no Lar do Bicho Feliz era uma experiência única, uma novidade a cada instante. Me lembro das tardes de conversas regadas a chá "de pêlo de gato", os lanches naquela mesa grande e cercada de amor, com a companhia dos felinos dengosos no colo, das noites em que eu dormia praticamente soterrada pelos corpinhos macios dos gatos, que me aqueciam o corpo e o coração.

Inês tinha muitas histórias, e a chegada dos três gatinhos narrada acima era apenas uma delas. Haviam histórias tristes, como a do gatinho que foi resgatado do CCZ e trouxe consigo uma virose mortal, que levou embora outros sete gatinhos, além dele mesmo. Mas haviam sobretudo histórias alegres, divertidas, cheias de vida e esperança, como a de Carolina, gata tricolor super amorosa resgatada de um bueiro da USP, ou de Lolo, um vovô amarelo e branco que vivia na rua e foi se chegando a custa de muitos carinhos, até o dia em que uma Inês muito feliz o encontrou dentro de casa, dormindo em seu travesseiro.

Onde quer que houvesse um gato em condições de risco, onde quer que houvesse um gato precisando de um lar, uma feira de doação, onde quer que houvesse um felino enjeitado, lá estava Inês, seja ao vivo, seja por e-mail, se dispondo a cuidar dele. Foi assim com a sialata Safira, que nasceu sem as pálpebras, foi assim com a pretinha Corina, que vivia com uma senhora idosa em condições miseráveis e estava com um eventramento, foi assim com Thiago, um gato de Niterói que havia quebrado a mandíbula, foi assim com Minie, siamesa miúda que chegou em sua casa quase morta, por causa de uma piometra. Foi assim com Nino, gatinho carioca que havia perdido uma pata, adotado via internet.

E foi através da internet que pude conhecê-la, e através dela, aumentar meu amor pelos animais, minha compreensão deles e da vida. Conheci Inês em meados de 2000, através da lista de discussão Gatos, e na época fiquei espantada com a quantidade de gatos que ela tinha - 15. Jamais pensaria que em pouco mais de 3 anos eu mesma estaria com muitos mais... Inês era divertida, alegre, escrevia histórias incríveis de seus gatos, sempre em um português extremamente correto. Era o alívio dos dias de chuva, um raio de sol na poeira da estrada. Inês era muito mais gata que gente, muita mais coração, sentimentos, ternura.

Os encontros gateiros que promovia em sua casa eram sempre cheios de surpresas. Em cada um, novos gatos, em cada um, novas histórias, novas emoções. A cada novo encontro entre nós duas, novas aventuras, unindo cada vez mais a carioca e a paulista em uma amizade recheada de sorrisos. Foi assim em Outubro de 2001, quando nos metemos em um resgato em plena avenida Paulista, acompanhadas da amiga Estela, resultando no salvamento de dois gatos que viviam ali em situação de risco, o tigradão Casi e a tigradinha Estela. Foi assim quando paramos em meio a uma avenida movimentada para salvar um cachorrinho de ser atropelado, e levá-lo conosco. Foi assim em uma noite em que avistei um siamês parado exatamente no meio da rua e Inês freou o carro de sopetão para que pudessemos salvá-lo.

Desde o começo de nossa amizade, Inês soube que tinha câncer. Ela já havia passado por isso em 1998, mas desde Março de 2001 a doença havia retornado, definhando seu corpo, mas nunca seu espírito. Inês continuava incansável, inesgotável, ajudando, salvando, adotando, dando uma chance de vida aos gatos que provavelmente sem ela hoje estariam mortos. Ajudava as amigas protetoras quando precisavam, ajudava com palavras, com consolo, com carinho. Ajudava os animais mesmo em detrimento de si mesma, ajudava-os com seu espírito generoso. Muita coisa passamos juntas, a dor da perda da sialata Liz, de PIF, em Fevereiro de 2002, a tristeza dos momentos de desespero e dor, a luta quando algum dos bichos ficava doente, a fuga de um cachorrinho recém resgatado. Mas acima de tudo passamos por muitas tardes felizes cercadas pelos bichos, muitos momentos de risos e festa, muitos "sanduíches de pêlo de gato", e muitas, mas muitas gargalhadas por causa das gracinhas que eles faziam.

Seu maior tesouro era a balinesa Nikita, filha "que saiu de dentro" dela, mãe dos trigêmeos siameses Huguinho, Zezinho e Luisinho. Nikita, com seus olhos vesgos e muito azuis, era sua grande paixão, sua filha mais amada. Ela veio para o RJ, ficar comigo, assim como a gata mais velha de Inês, a Debbie. Nikita será sempre a lembrança viva do doce sorriso de Inês. Dentro dos seus olhos, vejo refletidos aquele outro par de olhos azuis, sempre cheios de uma compaixão e de uma energia infinitas.

A história de Inês se mistura à dos gatos. Ela sempre gostou deles, desde criança. Talvez por ter sido uma pessoa tão cheia de amor à vida, tão otimista, tão cheia de alegria, ela tenha se tornado há muito tempo um anjo entre eles. Um anjo que agora está nos campos do céu, ao lado do Grande Gato, com certeza cercada dos animais que tanto amou em vida. Um anjo que estará de braços dados com São Francisco, olhando pelos que sofrem aqui embaixo... Para sempre Inesquecível.

- clauporto (Claudia Porto) [ Europe/Lisbon ] 2004/03/14 18:30

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