Artigo retirado de:
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Autor:
ZicaCabral (Zica CAldeira Cabral) [ Europe/Lisbon ] 2004/05/22 10:51

Uma Amiga Especial

(ou a história da Coruja Branquinha)


Começou mais ou menos em Maio. Os dias eram quentes e a janela do meu quarto estava sempre aberta, dia e noite. Quando vinha das aulas, às 7 da tarde, sentava-me a estudar na mesa de camilha em frente à janela que era de sacada com uma pequena varanda. Um dia, ela apareceu. Fiquei tão admirada que esfreguei os olhos devagar. Até sustive a respiração com medo de a assustar. Depois, respirei o mais silenciosamente possivel e comecei a falr com ela baixinho. Pareceu gostar do tom da minha voz porque ficou a olhar para mim, mansa, muito quieta, com a cabeça inclinada como se me estivesse a escutar.

Era a maior curuja branca que eu jamais vira e estava ali, à minha frente a admirar-me.

Sempre adorei curujas mas nunca tinha visto nenhuma de tão perto e, sobretudo nunca me passaria pela cabeça ver uma ali empoleirada no parapeito da varanda do meu quarto. Fugiu quando um dos meus filhos bateu à porta e – como de costume – mesmo antes de eu responder a abriu de um sacão.

Eu contei o que tinha acontecido mas ninguem acreditou...

- Pois Mãe, conte outra....uma curuja branca aqui em S. Amaro de Oeiras e na sua janela? Estava a dormir e sonhou isso tudo.

- Mas é verdade! Era uma curuja branca e poisou aqui. Eu não sonhei, estava a estudar e não a dormir.

Mas não houve processo de os convencer que era verdade. Eu própria comecei a duvidar do que vira e não falei mais do assunto.

Autor: Zica Cabral
Três ou quatro dias mais tarde, quando cheguei das aulas , pousei os livros em cima da mesa e, antes mesmo de me sentar, ouvi um esvoaçar pesado e... lá estava ela. Desta vez comecei a cantar baixinho e, depois, levantei a voz de modo a que os meus filhos me pudessem ouvir.

- Tenho uma curuja branca na minha janela, tenho uma curuja branca na minha janela, abram a porta devagarinho se a querem ver mas não façam barulho...

E cantei isto procurando uma melodia mais ou menos monocórdia para que a curuja não se assustasse mas, claro, as crianças excitadas abriram a porta com força e, aos berros, perguntaram onde estava a curuja. Ainda a conseguiram ver levantar voo e assim acreditaram no que tinha contado.

A partir desse dia as visitas eram diarias. Ficava 10 minutos, às vezes um pouco mais, dava uma volta por cima da minha mesa e ía-se embora. Eu falava com ela o tempo todo, baixinho, muitas vezes coisas sem nexo, só para a embalar com a minha voz.

Lembro-me de uma noite em que estava muito frio e eu não abri a janela. Ela voou duas ou três vezes em circulos, batendo com as asas na janela – que eu corri a abrir, evidentemente. E assim se passaram umas semanas, talvez um mês com a minha amiga alada a fazer-me visitas diárias. Um dia, vinha da estação a subir a rua e, para meu espanto, aí estava ela, alto no céu ainda claro, a acompanhar-me a casa. Desde esse dia deixei de subir aquela rua sozinha. Tinha sempre a minha amiga lá no alto a vigiar-me.
Contei de novo aos meus filhos e desta vez não duvidaram. Chegaram mesmo a presenciar a minha Branquinha (como comecei a chamar-lhe) a ir-me buscar à estação.

Chegou o Verão e entrei em férias. Durante quase duas semanas deixei de ver a Branquinha e, desgostosa, pensei que nunca mais a veria mas, passadas duas semanas, lá estava ela na varanda e piava imenso como se me quisesse dizer alguma coisa.

Nessa altura já tinhamos descoberto onde ela tinha o ninho. No campanário da Capela Mortuária de S. Amaro de Oeiras que ficava mesmo em frente da minha casa. Fui buscar os binóculos e, cheia de alegria, verifiquei que estavam duas coisinhas penugentas no ninho, a gritar. A Branquinha tinha vindo dizer-me que tivera dois filhotes.

A minha amizade com a Branquinha durou todo o Verão mas, em Outubro, terminou da pior maneira.

O telhado da capela precisava de obras, vi estarem a pôr os andaimes e tremi pela Branquinha. Falei com os trabalhadores, avisei-os do ninho, pedi para terem cuidado... mas já foi tarde. Riram-se e disseram-me que tinham destruído o ninho e morto a curuja e as crias.

- Curujas dão azar, é acabar-lhes com a raça – responderam.
A dôr e a raiva que senti quase me fizeram odiar aqueles homens e desejar-lhes tambem a morte tal como tinham feito à minha amiga, indefesa contra a estupidez, ignorância e maldade humanas.